Uma tartaruga bem verde passeava na beira de um precipício.
Lenta e pausadamente caminhava. Deixava que a gravilha caísse pelos 542 metros de vertigem.
A tartaruga pensativa fumava enquanto andava naquele equilíbrio. Um atrás do outro definia o ritmo da triste esperança. Apesar do seu passo depressivo a tartaruga caminhava em linha:
Uma perna em modelo à frente da outra,
uma mão com um cigarro castanho
baloissante entre a coxa e a boca,
e um braço;
de garçon serviçal atrás da carapaça.
O fim do percurso era totalmente desconhecido.
O numero de cigarros que tinha de reserva eram irrelevantes. As pernas habituadas a outra forma de locomoção não podiam sentir. Os olhos mutavam o foco entre tudo e nada. Os sentimentos eram vagos e directos; mas o caminho continuava a ser percorrido com um recorte fino para quem gosta de precipícios.
Sem cansaço nas pernas e sempre de cigarros, as costas falam. Avisam: para levar uma carapaça destas não é possível manter este momentum dramático.
A tartaruga recusa vergar
por pensar que vai sentir.
Destino que pode escorregar
para a vertigem...
"Os cigarros que faltam são 2. Não consigo deixar de olhar.
Tenho vertigens! Tenho vertigens!
O que faço? Vou cair. Eu sei que vou cair. Tenho a certeza que vou cair e vou ter com a minha família. Merda de vida!"
Entre insultos à vida e caralhadas ao ar a tartaruga vai escorregando estragando o desenho.
Cai areia e medo pelo precipício abaixo,
cai a cinza do cigarro que já não existe,
dobram as pernas por baixo do queixo
vincado e trancado por quem não desiste.
O tempo muda.
Aparece chuva.
A dor aumenta o perigo de mudar.
O vento surge e empurra-a contra o precipicio e ela cai.
No chão.
Com a cabeça de fora do recorte do caminho, obrigando os olhos a contemplarem os 641metros de medo e morte.
Parada 10 segundos muito muito lentos, a tartaruga ergueu a suas 4 patas, orientou-se e continuou.
Sem fumo nem estilo
Sem vista vazia
A tartaruga do nilo aprendeu:
...
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