20120410

Piu Pato Cria Canha

Piu faz o piu
Ui grita o Rui
Pai diz que vai
Cry on the pie.

Saco enche o sapato
Pato mia de gato
Rio do meu tio
Crio o Papa Pio

Saca de uma caca
Cria uma fatia
Mata um pé de vaca

Sonha e deixa a ronha
Olha estica e mia
Canha afoga a vergonha

20120213

A tartaruga e o precipício

Uma tartaruga bem verde passeava na beira de um precipício. 
Lenta e pausadamente caminhava. Deixava que a gravilha caísse pelos 542 metros de vertigem. 
A tartaruga pensativa fumava enquanto andava naquele equilíbrio. Um atrás do outro definia o ritmo da triste esperança. Apesar do seu passo depressivo a tartaruga caminhava em linha:


Uma perna em modelo à frente da outra, 
uma mão com um cigarro castanho
baloissante entre a coxa e a boca, 
e um braço;
de garçon serviçal atrás da carapaça. 


O fim do percurso era totalmente desconhecido. 
O numero de cigarros que tinha de reserva eram irrelevantes. As pernas habituadas a outra forma de locomoção não podiam sentir. Os olhos mutavam o foco entre tudo e nada. Os sentimentos eram vagos e directos; mas o caminho continuava a ser percorrido com um recorte fino para quem gosta de precipícios.


Sem cansaço nas pernas e sempre de cigarros, as costas falam. Avisam: para levar uma carapaça destas não é possível manter este momentum dramático.


A tartaruga recusa vergar
por pensar que vai sentir.
Destino que pode escorregar
para a vertigem...


"Os cigarros que faltam são 2. Não consigo deixar de olhar. 
Tenho vertigens! Tenho vertigens!
O que faço? Vou cair. Eu sei que vou cair. Tenho a certeza que vou cair e vou ter com a minha família. Merda de vida!"


Entre insultos à vida e caralhadas ao ar a tartaruga vai escorregando estragando o desenho. 


Cai areia e medo pelo precipício abaixo, 
cai a cinza do cigarro que já não existe, 
dobram as pernas por baixo do queixo
vincado e trancado por quem não desiste.


O tempo muda.
Aparece chuva.
A dor aumenta o perigo de mudar.
O vento surge e empurra-a contra o precipicio e ela cai.
No chão. 
Com a cabeça de fora do recorte do caminho, obrigando os olhos a contemplarem os 641metros de medo e morte.
Parada 10 segundos muito muito lentos, a tartaruga ergueu a suas 4 patas, orientou-se e continuou. 


Sem fumo nem estilo
Sem vista vazia 
A tartaruga do nilo aprendeu:
...

20110904

A cobra e o espelho

Era uma vez uma cobra falante. 
Uma cobra dominante.
Uma palavra dita pela cobra era seguida por toda a selva.
Não havia rastejante que não a ouvisse.
A cobra inchava de tanto falar.
A cobra sonhava em andar.
Olhavam para a cobra como de outro mundo.
Olhavam para a cobra como um modelo.
E a cobra continuava, gorda e alimentada, pelo elogio.
Num dia de sol, a gorda cobra viu um espelho com uma moldura de talha dourada bem no meio daquele carreiro  que ela por norma rastejava.
A cobra parou, elevou-se para o espelho e olhou... -se. Era a primeira vez que o fazia. 
Estava confusa a cobra. Sentia.
Sentia, emotiva, todo o calor dos sentimentos que a esvaziaram.
Sentia calada, por ver como era vista a cobra gorda.
Sentia ardor, do buraco que tinha no meio do seu esguio e gordo corpo.
Sentia secura, da falsidade do elogio que recebera.
A cobra ficou seca.
A cobra ficou magra.
A cobra morreu, porque não percebeu, que era o reflexo do sol no espelho que a queimava. 

20110706

Saudade

O que mata e moí e a roupa corroí é a saudade nova que pasma bloqueia e constrói em cima de uma pedra plena preta pronta para ser riscada com duas maus cheias de paus de giz amarelo como aquelas obras naquela estrada que eu não me lembro mas que me faz sentir saudade, outra vez.

Mas porque é que se pára o trigo à frente do joio quando queremos estar unidos por todas as pontas soltas que nos deixaram a abanar ao vento. 

E adivinha que voltou? A saudade de estar contigo independentemente das curvas e das obras e dos sítios estranhos que odiamos estar mas que a saudade retorcida porque também há saudade retorcida nos puxa para trás e não fosse a força dessa vontade que é o Amor a saudade retorcida já nos tinha enfiado num buraco que há sempre nas estradas em obras depois de uma chuvada forte e inesperada como são sempre as de verão

20110405

O Aguadeiro

Marrocos
2010
39º
10% de Humidade

A malta andava louca de um lado para o outro.
Burcas ao vento, túnicas esvoaçantes com areia.
Abdulaizz está irritado. O KAC de Kenitra perdeu outra vez. Vai em ultimo lugar no campeonato.
Hoje é domingo e há imensos estrangeiros a vaguear pela cidade. Uma boa oportunidade para vender mais uns copos de água.
Passam uns alemães que sorriem e, como sempre, rapidamente se agarram ao Abdulaizz para tirar fotos. Ele não gosta mas sorri. Sempre tentando servir um copo de água por uns meros dihrams. Mas nada feito. Não faz mal porque Abdulaizz sabe que a vida de aguadeiro é servir quem tem sede, e há sempre alguém com sede.
Passado um bocado aparece um enorme grupo de espanhóis. O Abdulaizz odeia espanhóis. Mas trabalho é trabalho e o aguadeiro sorri para interagir e tentar vender. Os espanhóis de peito cheio e voz esganiçada rodeiam o aguadeiro, puxam-no, gritam, saltam, riem, gozam, mexem-lhe no cabelo seboso, tiram-lhe os chinelos, enfim, fazem trinta por uma linha.
O aguadeiro, tonto e cansado pensa em desistir e fugir do meio do histerismo festivaleiro dos turistas irritantes. Nesse preciso momento, o vento pára. O calor fica instantaneamente mais intenso. A espanholada amaina. E o aguadeiro sente um força de vontade como há muito não sentia. Esticou-se, olhou a manada de espanhois nos olhos, sacou dos copos de vidro que o acompanhavam e, como um lançador de basebol, com uma rotina de super herói, começou a lançar violentamente os copos aos turistas.
A precisão de Abdulaizz é incrível. Os copos batiam da forma certa na cara dos turistas. Sempre com o esguicho de sangue, sempre provocando dor intensa. Uma autentica carnificina.
Naquela praça tudo parou, porque chegou a hora de rezar a Ála.

20110402

Pausas

Um sugo mastigado por um jacaré que lambe tudo mais que o pé do senhor que tinha um nome como o do José olhou para frente na busca feliz de gente que goste de pensar em como pentear com pente a parte da vida que puxa para o cimo dos sonhos colados nas nuvens de verão. PAUSA. O senhor José só tinha um pé bonito que era parecido com a da senhora Maria que ele amava e queria que fosse mais rica em práticas da vida que foi malapata para o filho do primo que se perde na árvore que é a casa de todos os macacos.PAUSA. A vez da terceira é certa e não deixa que pare o coração de amar como chora a vida que de trás provoca a frente de combate que tudo serve e alinha o destino do senhor que não está lá porque se perdeu na dispensa.

20101220

A história da "história que não queria ser contada"

Era uma vez uma história.
Sozinha e com muita coisa para dizer.
Complexa e cheia de sentimentos para partilhar.
Era uma história bonita, mas muito muito medrosa.
O seu medo lagarto deixava-a congelada, mesmo no verão.
Várias pessoas quiseram pegar nesta história e contá-la.
Divulgá-la ao mundo.
Eu sei que as pessoas gostam de contar histórias.
E quando contam uma boa história como esta, sentem orgulho por partilhar.
Mas a história não queria ser contada.
Recusava-se!
Não queria, não queria e não queria.
Uma história pode ser só dela própria e temos de aceitar essa decisão.
Ou não?
Uma história é de todos?
Sempre?
Enfim... não sei qual a resposta certa para isto.
O que sei é que esta história sentia.
Sentia que podia ser contada,
sentia que merecia ser contada,
sentia que ia gostar de ser contada...
mas preferiu outro caminho.
Não se partilhou.
Não se despiu.
Não se mostrou.
E não foi contada.
E morreu sozinha, a história.

20101217

#sem titulo#

O tempo é meu.
O tempo é teu.
O tempo é nosso
e o tempo é vosso.

A vida é minha
A vida é tua.
A vida é nossa
e a vida é vossa.

E o diabo escolheu visitar
a casa que era nossa.
Nem parou para hesitar
E atirou-me para a uma poça.

Molhado de tanto sofrer
Escolhi nadar...
Apanhei o diabo a comer
E bati-lhe sem parar.

Como a besta sangra zero
desisti de me cansar.
Virei-me por que sou quem quero
e aproveitei para pensar.

Se a besta não sangra nem chora
e eu não consigo a vingança
como faço agora
para satisfazer a minha pança?

Ignoro?
Espero?
Esqueço?
Mato?

NÃO!

Regresso para perto da besta.
Liberto-a.
Sem antes lhe dar dois beijos
e um abraço à toa...

Porquê?
Porque é meu e teu e nosso...
O tempo.

20101022

Orgulho do roto e o orgulho do nu

Uma voz esganiçada 
canta e arranha
na praça do centro da cidade 
brancade cal e calor 
com muita gente e muito pouca flor.
Ninguém vê 
o homem que esganiça
com força 
mas com preguiça
de quem quer ser visto
pela moça bela e roliça.
O buraco que vende 
na força da cantoria 
é sentido 
em só de solidão 
rá de rasgão 
e pó de podridão.
Desligado do mundo,
o Roto de roupão
canta esganiçado por perdão.
E o outro? 
Passa na passadeira desbotada
com três casacos cheios de nada.
Abana a cauda como um guaxinim
porque tem de vender que tem pilim.
Transpirado de vaidade ao sol
sem dó nem piedade de si
rema com a musica da verdade mol
que seria ser olhado por ti.
Nu de tanto esconder e nu de tanto tapar
olha para o Roto e ri 
porque claro que o quer julgar.
O Roto arrota de volta e diz:
Antes Roto que Nu!
E o Nu ri:
Dizes tu, dizes tu!

20100917

À Beira rio

Eles estavam à beira rio à conversa. Sobre a vida, sobre os outros, sobre as coisas e sobre os interesses. A tarde estava a ser tão normal quanto a conversa destes amigos. As minis vazias faziam fila; como se tivessem pressa de chegar ao vidrão.
Como todas as tardes normais podem deixar de o ser, o David, entre a conversa sobre a Universidade e a do novo Gallardo, começou a chorar; compulsiva e ofegantemente. Os amigos, que o rodeavam, ficaram quase paralisados! 
"O que foi, man?" perguntou o Joel.
"Tás bem?" perguntou o Manel.
O David acena a cabeça, dizendo que sim, enquanto tenta voltar a respirar mais devagar que as lágrimas que saltavam dos seus olhos para o rio. Aqueles três minutos de choro foram poderosos para o David, e longos e desconfortáveis para o Manel e para o Carlos. Um ambiente estranho, visto de fora.
Já com alguma serenidade, o David começou a falar. Contou-lhes a história de uma ideia que teve, como fez para a colocar em prática e como ultrapassou as primeiras dificuldades. Sozinho. Sem ninguém saber. Os amigos que o ouviam com atenção, ficaram boquiabertos quando perceberam que o seu amigo David tinha vendido o seu projecto por um milhão e seiscentos mil euros. O Joel levantou-se de imediato, aos berros, a abraçar e a insultar o David. Era assim que ele manifestava a amizade e a felicidade pelo sucesso do amigo. O Manel e o Carlos, com umas feições mais desfiguradas, elogiaram timidamente o sucesso do amigo.
Eu, que estou aqui em baixo, fiquei curioso; então estes seres choram quando deviam rir? Quererá isto dizer que podem estar a rir quando na verdade estão a chorar? Um abraço com um insulto é uma manifestação de amizade? Não entendo muito bem como é que eles conseguem viver na mínima harmonia. Para os peixes como eu é simples: procurar, fugir, comer, reproduzir.
Com esta coisa das emoções morria-mos num instante. Garantidamente!
Ainda assim...deve ser giro....